Nas últimas semanas li alguns artigos abordando de maneira infantil e sensacionalista o que chamam de “privatização” do Estádio do Pacaembu. Certamente a escolha do termo não é uma coincidência, e é usada justamente para aumentar a carga dramática em cima do que é, de fato, uma concessão.

É sabido que no Brasil se convencionou tratar por “privatização” o bem público que tem sua posse definitivamente transferida para a iniciativa privada, ao passo que a “concessão” é a propriedade estatal que passa a ser administrada e explorada por um período determinado por um agente privado, retornando ao poder público em seguida.

Portanto, sendo contrário ou favorável ao modelo proposto para o Pacaembu, recomendo atenção redobrada com quem “inocentemente” fala em “privatização” do estádio.

Evidentemente o tombamento não é um impeditivo para reformas, especialmente quando se fala em demolição do tobogã. O Pacaembu é tombado não por causa do ordinário tobogã (anexo construído em 1970 em substituição à belíssima concha acústica) ou mesmo pelo interior, mas sim pela fachada de inspiração fascista – estilo marcante no Estado Novo -, de autoria do arquiteto Ricardo Severo. Isso é tão elementar, que basta ver os exemplos dos semelhantes, igualmente protegidos e remodelados Estádio Olímpico de Berlim e Soldier Field, em Chicago.

Ao mesmo tempo em que apelam (sem razão) ao tombamento como justificativa para que o equipamento se mantenha ultrapassado, chegam ao cúmulo de reclamar da possibilidade de poder receber shows. Isso justamente em um estádio que foi projetado para ser uma “arena multiuso” na época, não apenas com eventos esportivos, mas também culturais, tanto que contava até com a concha acústica para isso. Ou seja, para quem finge se importar com a história, seria de se louvar que o estádio recuperasse sua vocação original e se tornasse mais ativo no dia a dia da cidade, e não ocioso como hoje.

A verdade é que, infelizmente, o Pacaembu se tornou um elefante branco desde que o Corinthians inaugurou sua arena, em 2014. No ano seguinte, por exemplo, abrigou apenas 13 partidas. Ou alguém assume o mais clássico estádio paulistano, ou ele continuará defasado, subutilizado, onerando os cofres públicos e reduzido a parque/clube para os endinheirados moradores do entorno.

Aliás, tem muito jornalista metido a justiceiro social que vem com conversinha demagógica de “população de baixa renda que usa as instalações esportivas do complexo” e desconsidera sua localização, em meio a um dos bairros mais elitistas da cidade, residencial, ainda sem metrô e em um relevo acidentado que dificulta a caminhada. Quem de fato se preocupa com a população carente defende a instalação de clubes onde ela mora, não a obrigando a cruzar a cidade e gastar com transporte para utilizar como mera recreação um equipamento esportivo de ponta, profissional, com custos altíssimos de manutenção.

Elitista mesmo é fazer coro ao lobby das influentes associações de moradores da área, que de um jeito ou de outro, vêm conseguindo barrar shows no estádio. Algumas delas são do tipo que foram corretamente desmoralizadas há alguns anos quando seus representantes (que não representam a imensa maioria de moradores da área) falaram contra uma estação de metrô na região porque “traria uma gente diferenciada (pobre)”. É bom lembrar que desde 1935 aquela área foi destinada a receber grandes eventos, e mesmo assim, esses grupos conseguem impedir atividades que ocorrem normalmente em estádios de outras zonas.

Soluções pueris lançadas como salvadoras por pessoas sem vivência em gestão esportiva, como abrigar campeonatos de várzea ou rúgbi, são absolutamente irresponsáveis e deveriam fazer corar qualquer um que queira discutir o assunto seriamente.

Enfim, aquele Pacaembu “Maracanã paulistano” de meados do século passado, ou a casa corintiana de até poucos anos atrás, morreu. A questão é entre discutirmos maduramente os termos da concessão para definir o que queremos para as próximas décadas, ou se preferimos condenar o estádio mais charmoso de São Paulo a ser um monumento à ineficiência, financiado compulsoriamente pelos contribuintes para ser (aí sim) “privatizado” para seus poucos usuários.

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